
As férias escolares são aguardadas com ansiedade pelas crianças, que veem no período uma oportunidade para descansar, brincar e passar mais tempo com a família. Para pais, mães e responsáveis, porém, o recesso costuma trazer desafios que vão muito além do planejamento de passeios e atividades.
A mudança na rotina da casa, a necessidade de conciliar trabalho e cuidados com os filhos e a expectativa de proporcionar momentos especiais podem tornar as férias em uma fonte de estresse. Mas segundo especialistas, com organização e diálogo, é possível transformar esse período em uma oportunidade de convivência, desenvolvimento e fortalecimento dos vínculos familiares.
Rotina muda nas férias (e isso é normal)
Um dos primeiros impactos das férias escolares acontece na rotina familiar. Sem os horários fixos das aulas, as crianças passam mais tempo em casa, alterando hábitos relacionados ao sono, alimentação, lazer e uso de telas. Contudo, é recomendável manter algumas referências ao longo do dia.
“Férias não precisam seguir a mesma estrutura do período letivo, mas manter alguns combinados contribui para o bem-estar das crianças e facilita a organização da casa. Horários minimamente organizados para refeições, descanso e atividades ajudam as crianças a se sentirem mais seguras e previsíveis em relação ao que vai acontecer ao longo do dia, reduzindo a ansiedade e evitando conflitos”, opina Carla Litrenta, psicopedagoga e educadora parental.
de Barueri (SP).
Para os pais e responsáveis, essa organização também facilita a gestão das tarefas diárias, o equilíbrio entre trabalho e vida familiar e a definição de limites de forma mais clara. “Manter uma estrutura que favoreça o bem-estar de todos, com expectativas alinhadas, tende a proporcionar um período de férias que se torna mais agradável e harmonioso para toda a família”, acrescenta.
Nem sempre dá para tirar férias com os filhos
Outro desafio comum é que o calendário escolar nem sempre coincide com a disponibilidade dos adultos. Enquanto as crianças ficam várias semanas sem aulas, pais e responsáveis continuam trabalhando normalmente – e a sensação de culpa aparece.
"Muitos pais e responsáveis se sentem culpados por não conseguirem estar com os filhos durante todo o período de férias, especialmente quando precisam continuar trabalhando. Mas as crianças se beneficiam muito mais de momentos de presença verdadeira, em que se sentem ouvidas e acolhidas, do que de uma agenda repleta de atividades ou da companhia constante dos responsáveis. O mais importante é que elas percebam que fazem parte das prioridades da família", afirma Alessandra Mafra Ribeiro, psicóloga e school counselor.
Nesse contexto, familiares, colônias de férias, cursos de curta duração e atividades recreativas podem ajudar a preencher parte do tempo das crianças de forma segura e estimulante. “Mais importante do que ocupar cada hora do dia é garantir que elas tenham oportunidades de brincar, explorar interesses e conviver com outras pessoas”, diz Alessandra.
Alinhe expectativas sobre as férias
Algumas famílias iniciam as férias escolares imaginando semanas repletas de viagens, passeios e atividades especiais - expectativa muitas vezes alimentada pela publicidade e pelas redes sociais. Quando a rotina da família não corresponde a esse cenário idealizado, é comum surgirem frustrações tanto para os adultos quanto para as crianças.
O diálogo é fundamental: conversar sobre o que será possível fazer, quais são os compromissos da família e como cada um imagina aproveitar o período ajuda a alinhar expectativas e evitar conflitos. “Também é importante compreender que férias não precisam ser preenchidas por uma programação intensa o tempo todo. O ócio, quando vivido de forma saudável, tem papel importante no desenvolvimento infantil, estimulando a criatividade, a autonomia e a capacidade de encontrar formas próprias de brincar e se divertir”, diz Marcelo Freitas, psicólogo e orientador educacional.
Além disso, momentos simples podem ser tão significativos quanto grandes eventos. Brincadeiras em casa, cozinhar juntos, visitar parentes, fazer caminhadas, ler um livro ou simplesmente passar mais tempo em família são experiências que fortalecem vínculos, promovem o bem-estar e criam memórias afetivas duradouras. “Férias bem aproveitadas não são necessariamente aquelas que rendem as melhores fotos, mas as que proporcionam momentos genuínos de convivência e descanso para todos”, acrescenta Freitas.
Responsáveis também precisam de férias
Em meio à preocupação com o bem-estar das crianças, muitos pais e responsáveis acabam deixando suas próprias necessidades em segundo plano. No entanto, o descanso dos adultos também deve fazer parte do planejamento das férias. Afinal, quando os responsáveis estão mais descansados e emocionalmente disponíveis, toda a dinâmica familiar tende a se beneficiar.
“Mesmo quando não é possível viajar ou se ausentar do trabalho, reservar momentos para atividades prazerosas, autocuidado e descanso pode contribuir para reduzir o estresse e melhorar a convivência em casa. Isso inclui desde praticar um hobby até simplesmente ter um tempo para relaxar sem a obrigação de cumprir uma agenda cheia de compromissos”, diz Juliana Campagnoli, orientadora educacional.
Para os casais, o período também pode ser uma oportunidade para fortalecer a relação. É comum que toda a energia da família seja direcionada às necessidades dos filhos, mas a qualidade da convivência entre os cônjuges também merece atenção. “Reservar alguns momentos para conversas, passeios ou atividades a dois ajuda a fortalecer os vínculos afetivos e contribui para um ambiente familiar mais equilibrado. Cuidar da relação do casal não significa dedicar menos atenção às crianças, mas reconhecer que o bem-estar da família passa também pela saúde emocional dos responsáveis” finaliza Juliana.
Os especialistas
Alessandra Mafra Ribeiro é psicóloga, formada pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), mestre em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pela Universidade de São Paulo (USP) e pela University of British Columbia (UBC). Atua desde 2016 no desenvolvimento e na implementação de programas voltados à promoção de competências socioemocionais em contextos educacionais. Nos últimos 6 anos, tem trabalhado com jovens e adultos com foco em desenvolvimento pessoal, escolhas acadêmicas e processos de candidatura para universidades no exterior. Atualmente, atua como School Counselor na Escola Aubrick, integrando orientação educacional e aconselhamento acadêmico em sua prática profissional.
Carla Litrenta Todaro é pedagoga, educadora parental e pós-graduada em “Psicologia Positiva: Ciência do Bem-Estar e da Autorrealização” e em “Bullying, Violência e Discriminação na Escola”. Iniciou sua carreira há quase 30 anos como professora de alfabetização nas séries iniciais, trilhando seu caminho no mundo da educação. Estudiosa das relações e do desenvolvimento humano, atualmente é coordenadora de relacionamentos da Escola Internacional de Alphaville.
Juliana Campagnoli é graduada em Pedagogia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com pós-graduação em Alfabetização, Educação Bilíngue e Educação Infantil. Tem ampla experiência na educação básica, atuando há 10 anos como docente em diferentes séries da Educação Infantil e Ensino Fundamental I. É Orientadora Educacional do Year 2 ao Year 5, função em que parte do acolhimento individual para a promoção do desenvolvimento coletivo das turmas, amadurecimento e crescimento acadêmico, sempre em diálogo com as famílias e professores.
Marcelo Tucci de Freitas é psicólogo clínico TCC, com especialização em adolescência; pedagogo; possui MBA em Gestão Educacional, e atualmente é orientador educacional do Ensino Fundamental Anos Finais no Brazilian International School - BIS. Com mais de 30 anos de experiência na área educacional atuou em diversas instituições de ensino básico e superior, na coordenação pedagógica e como docente de Psicologia e Ética.
Por Vagner Lima.

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