
Você não conseguirá parar até ler tudo e ainda fará mais perguntas ao Zenilton Custódio após as que ele fez ao Ubaldo (nome fictício). Confira:
Desempregado há dois anos, o comerciário Ubaldo (nome fictício), de 56 nos, residente no município de Linhares, teve que apelar para o crime. E o pior, com sua mente diabólica envolveu toda a família: mulher e os três filhos, de 18, 19 e 23 anos. O grupo funciona como uma quadrilha organizada. Eles são especializados em furtar em feiras livres e supermercados. Mas não são ladrões comuns que saem passando a mão na primeira coisa que encontram pela frente. Apenas um produto lhes interessa: dentes de alho. Isso mesmo, aquele alho que na culinária usamos para temperar a comida e que nos filmes, o mocinho usa para espantar vampiros, lobisomens e outros monstros.
Ubaldo, o mentor intelectual da trama, concordou em me contar toda a história desde que não cite nenhuma informação que possa levar a polícia ao seu esconderijo. Então vamos lá. Logo de cara, para estimular vocês a lerem o resto do texto, devo informar que, mensalmente, a família furta em torno de 6 mil dentes de alho. “Mas como conseguem?”, alguém deve estar se perguntando.
Simples: Todos os dias (de segunda a sábado), os cinco “visitam” oito dos maiores supermercados do município, sendo que cada um tem a missão de furtar cinco dentes. Além disso, na sexta e no sábado, eles estendem suas atividades criminosas às duas feiras livres que acontecem nos bairros Interlagos e Araçá. Portanto, façam as contas. Furtar alho pode até parecer uma coisa simples, mas é muito mais complicado do que podemos imaginar.
Em primeiro lugar, não é qualquer dente de alho. Eles dão preferência aos graúdos ou de casca arroxeada, pois significa que estão verdes e, portanto, pesam mais. Para não chamar a atenção dos vigias, se vestem se forma distinta e se comportam como consumidores. E, para enganar as câmeras, conforme revelou Ubaldo, que na família ganhou o apelido de “Bugalho”, pegam os dentes junto com um monte de cascas. Depois, simulam uma desistência do produto e deixam as cascas, mas levam os dentes.
Tudo isso, disse, acontece em menos de dois minutos. O desempregado argumentou que não tem nenhuma pretensão de entrar para o Guinness como o maior ladrão de alhos do mundo e que trata- se apenas de uma questão de sobrevivência. O que fazem com tanto alho? Vendem para parentes do interior. Seis mil dentes correspondem a mais ou menos 40 quilos. O produto é vendido por R$ 10, 00 o quilo, o que rende para a família mensalmente em torno de R$ 400,00. Pouco? Com o dinheiro eles garantem o pagamento da energia elétrica, da água, do gás e de parte da comida.
É importante destacar, que a família de Ubaldo, assim como ele próprio, são pessoas honestas e bem intencionadas. “Assim que alguém da família conseguir um emprego, vamos abandonar o crime”, prometeu ele, que há 10 meses está nessa vida, tendo furtado desde o início um total de 60 mil dentes de alho. Abaixo, algumas perguntas e respostas:
Zenilton- Como surgiu a ideia de furtar alhos. Não poderia ser cebola, ou jiló?
Ubaldo- Certo dia, faltou tempero na comida e eu não tinha como comprar. A mulher disse que se tivesse uns dois dentes de alho para temperar o feijão estaria de bom tamanho. Fui a um supermercado e peguei cinco dentes. Repeti o mesmo no dia seguinte em outro supermercado, até que tive a ideia de transformar aquilo em nossa tábua de salvação.
Zenilton- Nunca ninguém foi pego?
Ubaldo- Não, nunca aconteceu, pois ninguém se importa com alguém que furta dentes de alho.
Zenilton- Com um não, mas com 60 mil...?
Ubaldo- É, mas não faz falta pra eles não.
Zenilton- E se acontecer de pegarem alguém?
Ubaldo- Vai ser triste. Espero que eles entendam a situação.
Zenilton- Já pensou em furtar outra coisa qualquer?
Ubaldo- Não, nem passa por minha cabeça, mas tenho fé que logo vou parar com isso. Ontem mesmo apareceu uma proposta de emprego pra mim e para meu filho mais velho. Acho que vamos fechar.
Zenilton- Boa sorte. Ubaldo- Obrigado.
Zenilton Custódio é jornalista
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