
Com todo respeito aos moradores do bairro Olaria, os mais afetados. Mas confesso que estou com uma saudade imensa das enchentes. Daquelas que inundam as roças e expulsam os moradores das ilhas. Se acontecer uma, antes das estradas ribeirinhas desaparecerem sob as águas, passo com minha trouxa de roupas para Povoação, localidade que fica totalmente ilhada e que depende do socorro de helicópteros e dos barcos do Corpo de Bombeiros, para a alegria da criançada.
A sensação de ficar ilhado, de se sentir diferente, de saber que do outro lado das águas existem pessoas preocupadas com você, é indescritível. Além de se constituir em uma boa desculpa para não trabalhar. "Chefe, vim visitar um parente em Povoação e fui surpreendido pela enchente, não tenho como trabalhar por pelo menos uma semana". E tome cerveja com moqueca de camarão, pois é justamente quando as águas sobem que o crustáceo aparece com fartura.
É também neste período, que a boca da barra da Lagoa Monsarás estoura pela pressão das águas e toneladas de peixes são lançadas na areia, para felicidade geral da nação povoense.
Mas para tristeza dos felizes desabrigados, olhem quem está chegando: o governador com os bolsos cheios de dinheiro, o prefeito com sacos de balas para a gurizada, os vereadores com sacolas de alimentos não perecíveis. Todos sorrindo para as câmeras de TV.
Para decepção dos jornalistas, ninguém sobre os telhados para ser resgatado. Até que chega a triste notícia: as águas estão baixando, as estradas liberadas, a vida voltando à normalidade. Normalidade é uma chatice. E só faltava essa: o abastecimento de água foi normalizado. Que saco!
Zenilton Custódio é jornalista
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