
Um problema que tem recentemente preocupado os pescadores da vila de Regência, município de Linhares, diz respeito a um possível fechamento da Foz do Rio Doce. Tal fenômeno jamais ocorreu, até onde se sabe.
Atualmente a foz do rio está dividida em duas pequenas saídas (barras) onde as águas do Rio Doce encontram com o Oceano Atlântico. A barra norte ainda permite a passagem de pequenas embarcações quando a maré está alta. A barra sul está quase fechada não mais passando embarcações por ela. Tal situação tem angustiado os pescadores que pescam na região da foz, seja no rio ou no mar costeiro. Se a barra norte se estreitar mais um pouco, impedirá a passagem de embarcações limitando a pesca à área do rio, em pequena escala. Também teríamos um forte impacto ecológico pela dificuldade ou mesmo impossibilidade da movimentação de peixes do mar para o rio e vice-versa, comprometendo gravemente a reprodução de várias espécies, algumas muito importantes para a economia pesqueira local.
Seria algo muito grave e mesmo insólito o fechamento da foz de um rio da magnitude (mais de 800 km) e importância (228 municípios) do Rio Doce, ainda que de forma temporária. Demonstraria cabalmente o estado de calamidade ambiental em que se encontra a bacia hidrográfica do Rio Doce.
Não é difícil compreender as causas da situação atual na foz do Rio Doce. São décadas de agressões ambientais. Dentre elas: desmatamento intenso de sua cobertura florestal nativa, degradação e erosão do solo por práticas agropecuárias insustentáveis ao longo de toda sua bacia, ocupação desordenada de suas margens e das de seus principais afluentes.
A captação de suas águas para projetos de irrigação assim como por indústrias da região, tem servido para agravar ainda mais o quadro de inanição hídrica do quase exaurido Rio Doce. Ao usarem canais a céu aberto para desviar grandes volumes de água do rio, optam por uma técnica pouco eficiente devido às grandes perdas por infiltração e evaporação, obrigando a captar mais água para compensá-las.
As fortes enchentes que atingiram o Rio Doce em 2013-2014 carrearam enormes quantidades de sedimentos para o leito do rio. Já a forte seca do período 2014-2015 tem contribuído para baixar o nível do mesmo. Somando-se a estes dois fenômenos – assoreamento e seca –, de forma sinérgica, temos vários outros fatores, como a natural dinâmica geomorfológica e marinha na região da foz. Com mais sedimentos e menos água, o rio tem perdido força na luta para abrir caminho até o mar.
Moradores de Regência já começaram a perceber algum grau de salinidade nas águas do Rio Doce durante a maré alta, o que, se agravado, poderá causar sérios problemas de abastecimento à população, além de impactos negativos à fauna e flora da região.
Na verdade, o que está ocorrendo com o Rio Doce, é a fase aguda de um mal crônico. Só esperamos que não seja terminal.
Por Carlos Henrique Bernardes, Técnico Ambiental Centro Tamar-ICMBio/ES (com a colaboração dos demais servidores do Centro Tamar e Fundação Pró-Tamar)
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