
"Um dia, há alguns anos atrás, estava foleando um Inquérito Policial de Homicídio Tentado, crime registrado lá por volta do ano 2000, quando percebi que se tratava de mais um daqueles casos corriqueiros da região Norte do Estado, um “boteco” que só vendia “aguardente”, cerveja e tira-gostos vencidos, um bêbado e um dono de “boteco” com uma arma: Pronto! como diriam meus amigos nordestinos, a mistura perfeita! Confusão formada e um disparo de arma de fogo na perna da Vítima.
Retomamos, ou melhor, “iniciamos” as investigações, e constatamos que a vítima havia sobrevivido ao disparo, porém após alguns meses, teria sido assassinada a golpes de machado, isso mesmo, vocês leram muito bem! Golpes de machado na cabeça!
Neste caso, o homicídio, estava sendo tratado em outro Inquérito Policial. Então solicitei ao meu grande amigo, Investigador Leone, que buscasse a ex-companheira da vítima, para testemunhar no caso do homicídio tentado, aquele do disparo na perna...
Em depoimento a ex-companheira da vítima confirmou que o autor do disparo foi realmente o dono do elegante “botequim”, e acrescentou que a vítima era “perturbada mesmo”, que bebia muito, “até cair”, que procurava confusão com todo mundo. Então fechamos a investigação do homicídio tentado, com materialidade e autoria.
Outro investigador, que eu não posso revelar o nome, aproveitando a presença da ex-companheira da vítima na delegacia, passou a questioná-la sobre quem seria o autor do homicídio, aquele dos golpes de machado na cabeça... A senhora a princípio ficou meio em dúvida, confusa e logo em seguida disse: “UÉ MAS FUI EU!” Todos parados, estatelados na verdade, acho que ouvi os pensamentos e vi nas faces dos que estavam na sala de interrogatório, pelo menos uns três “como assim?”.
Neste momento, fui apresentado à autora do crime, uma senhora de uns 53 anos de idade, que na época do crime deveria ter uns 40 anos, iletrada, sem documentos de identificação, oriunda do norte de MG, 05 filhos; E, me disse que conviveu com a vítima por uns 20 anos, informou que o sujeito era um monstro, bebia desenfreadamente, vivia envolvendo-se em confusões, torrava o pagamento dele e dela nos “botecos” e nas “jogatinas”, e lhe aplicava quase uma surra por dia; Finalmente, finalizando, disse que um dia cansou-se das humilhações e de ser subjugada: Na noite do crime, quando a nefasta criatura chegou pela última vez em casa, “trocando as pernas” como sempre, mas com disposição e tempo para aplicar a derradeira surra em nossa personagem, então, depois de cumprir o ritual rotineiro de humilhações, ela espera o sujeito cair nos braços de Morfeu, bêbado e imundo, apanha o machado e...vocês já sabem o final!”.
O delegado Fabrício Lucindo Lima é titular da delegacia de Sooretama
Mín. 19° Máx. 28°