
Você conhece a história dos anos que o Brasil teve dois carnavais? Pois é, isto aconteceu sim. E neste ano de 2021, a pandemia do novo coronavírus mudou os planos no mundo, mas vamos aos fatos, através do brilhante texto do Doutor Fabrício Lucindo Lima:
Caros leitores, hoje vamos falar sobre um assunto interessante: o carnaval de 2021. Todos vocês têm visto notícias do Brasil inteiro sobre o feriado do carnaval, e em alguns municípios e Estados da nação, foram canceladas as folgas; em outros foram proibidas as festas, bailes, blocos e outros, ou seja, de uma forma ou de outra o carnaval 2021 foi cancelado por conta da pandemia.
Observem como essa trágica pandemia está mudando nossas vidas. Em quase meio século de vida, eu nunca havia ouvido falar sobre a possibilidade do cancelamento do carnaval, festa que se tornou uma coisa quase que sagrada na cultura popular brasileira, muita gente se diverte, outros satanizam as datas, mas aproveitam as folgas; o pessoal dos serviços essenciais e das escalas de revezamento não param, e tem ainda uma turma que aproveita para ganhar um dinheiro para reforçar o orçamento.
Pois bem, intrigado sobre essa história de adiamento ou cancelamento do carnaval, acabei pesquisando um pouco sobre o assunto e descobri que já tivemos dois episódios semelhantes no passado.
A primeira vez em que a festa popular foi adiada, foi em 1892. O ministro do interior da época, decidiu mudar a data para o mês de junho, no final do século XIX, o carnaval começava a se firmar no Rio de Janeiro e em São Paulo, mas ainda era conhecido como uma festa violenta, em que as pessoas saíam pelas ruas fantasiadas e se atacavam com farinha, água, limões, tomates podres e até dejetos humanos e de animais.
Pois bem: para o tal Ministro, junho era um mês “mais saudável” do que fevereiro por conta do calor, já que havia um pensamento comum de que no calor, os vírus e as bactérias se propagavam mais ferozmente. Ainda não existiam escolas de samba e a festa era somente nas ruas, conhecida como Entrudo. Pronto, não deu certo! Os foliões ignoraram as regras e tivemos dois carnavais, sendo um em fevereiro e outro de junho.
Em 1912, já no século XX, a época da modernidade, a festa popular estava quase pronta para acontecer; no entanto, faltando apenas alguns dias para os quatro dias de folia, José Maria da Silva Paranhos Júnior, o “Barão do Rio Branco”, homem influente em todo o país e no exterior, Ministro das Relações Exteriores por quase uma década, morreu, aos 66 anos, vítima de insuficiência renal.
O falecimento causou uma comoção nacional. O Brasil caiu em luto. No Rio de Janeiro, a capital da República da época, uma multidão fez fila no Palácio do Itamaraty para ver o cadáver do Barão e acompanharam o caixão até o Cemitério do Caju, onde o ministro foi enterrado com honras de chefe de Estado.
Dada à situação de comoção generalizada, o Governo determinou que em respeito ao Barão, os bailes de carnaval deveriam ser adiados para 6 de abril, na páscoa. Os clubes que organizavam bailes à fantasia, em especial os do Rio, acharam que seria um desrespeito promover a esbórnia em pleno período de luto, então, aceitaram a determinação e decidiram cancelar os bailes em cima da hora e remarcá-los.
A princípio, a população havia aceitado a ideia de ter o carnaval em abril, no feriado da Páscoa. Contudo, quando chegou o sábado de carnaval, os foliões decretaram que uma semana de luto estava mais do que bom e foram para as ruas. Muitos, inclusive, em meio à festa, enaltecendo a figura do falecido. Outros, fazendo graça com a história toda.
Semanas após, no feriado da Páscoa, em abril, outro carnaval. Mais quatro dias de folia nas ruas e criaram até uma marchinha de carnaval em homenagem ao Barão e o carnaval: “Com a morte do barão, tivemos dois 'carnavá'. Ai, que bom, ai, que gostoso, se morresse o marechá”, em referência ao Marechal Hermes da Fonseca, presidente do Brasil na época.
Meus amigos, essas são histórias de um país, de um povo que não leva as coisas a sério. Estamos passando por uma pandemia sem precedentes, nossos amigos, parentes, os parentes de nossos amigos, nossos colegas de trabalho, pessoas que nós conhecemos, do nosso convívio, estão ficando doentes e estão morrendo... e nós... continuamos brincando, fazendo piadas e até desrespeitando nossos mortos.
Espero sinceramente, pelo menos desta vez, que as determinações sejam respeitadas e que tenhamos um feriado de carnaval sem festas, bailes, blocos, escolas de samba e aglomerações, para o bem de todos. Quem sabe no ano que vem, todos nós estaremos vacinados e imunizados?
*Fabrício Lucindo Lima é delegado da Polícia Civil, chefe da 16ª Regional no ES
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