
"Hoje irei falar sobre alguns acontecimentos que me fizeram refletir sobre a vida, meus conceitos e pré-conceitos, que são quase que inconscientes, ante a minha formação machista e regionalmente do interior do Estado do Espírito Santo, mas graças a experiência do dia a dia, confesso a todos vocês, orgulhosamente, que quebrei a cara em uma avaliação precipitada.
Em 2015 , como delegado titular da delegacia da cidade de Sooretama, trabalhava apenas com policiais civis do sexo masculino, porém, como todos sabem, de tempos em tempos, novos policiais entram na corporação, e existe um remanejamento natural, onde os novatos vêm para o Interior e os que desejam, vão para a capital ou outros municípios. Pois bem: eu iria perder um excelente policial civil e iria receber uma policial mulher, Deborah Karlla, investigadora de meia idade e com pouca experiência policial, recém saída da academia de polícia.
Logo pensei: isso não vai dar certo! Com certeza o serviço ficará prejudicado... Mas, claro, nunca externei para ninguém minha opinião culturalmente machista, em avaliar precipitadamente que uma mulher não poderia dar conta dos trabalhos policiais como um homem o faz, investigando, conduzindo bandidos e efetuando prisões e busca e apreensões.
O tempo passou, trabalhamos juntos por mais ou menos 3 anos e posso afirmar com certeza: tenho orgulho de dizer que dou a mão a palmatória, não trocaria essa policial por nenhum homem com os quais até hoje trabalhei: Correta, honesta, obstinada pelas investigações, interrogando bandidos, tomando depoimentos, efetuando prisões, buscas e apreensões. E com tantas atividades, a investigadora acabou se tornando o terror dos abusadores sexuais e dos autores de crimes vinculados a Lei Maria da Penha. Em três anos foram mais de 450 casos de violência doméstica e estupros concluídos e encaminhados a Justiça, em grande parte, graças ao empenho desta policial.
Em uma oportunidade, enquadrou e conduziu para a delegacia de Sooretama, em companhia de outro policial civil, quatro elementos suspeitos que pretendiam praticar crimes patrimoniais na cidade; em outro caso, após cercarmos o esconderijo de um homicida, não teve dúvidas ao enquadrar o elemento escondido no banheiro da casa.
Quando comecei a avalia-la a certa distância, entendi onde havia errado: Nunca devemos avaliar uma pessoa pelo que se ouviu dizer, pelo gênero, opção sexual, religião e outros. As pessoas nos surpreendem todos os dias, nós só precisamos permitir que isso aconteça. Descobri que ser policial sempre foi a vocação dessa mulher guerreira. Filha de dois policiais aposentados, e que verdadeiramente, em suas veias, corre um sangue Policial Civil.
Parabéns para todas as mulheres neste dia e em todos os dias do ano, em especial para aquelas que não admitem ser subestimadas e não se sujeitam a nenhum tipo de violência física, econômica ou psicológica. Para mim foi uma honra reconhecer que estava absolutamente errado em minha avaliação precipitada".
Eu conheço a Débora, e só tenho elogios, é uma mulher íntegra, com certeza muito capaz.
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