
Um lugar chamado “PERDIÇÃO”
Sim, tudo que você vai ler abaixo aconteceu. Você poderá não acreditar, mas aconteceu. Leia:
Foi em meados da década de 70, quando muito pouco dinheiro circulava no mercado e as pessoas do interior do Estado do Espirito Santo produziam quase tudo que consumiam, uma época que deixou muitas saudades. As pessoas não tinham telefones à disposição, celulares nem em filmes de ficção científica, costumeiramente usávamos os correios para enviar cartas e telegramas, contando as novidades. O recebimento de uma carta de um parente ou de amigo era um evento familiar, todos se reuniam na sala para ouvir as últimas novidades e as fofocas familiares, claro, não poderiam faltar as cartas de amor apaixonadas, que os casais enamorados trocavam.
Entretanto, assim como os modernos aplicativos whatsapp, Messenger e outros, as cartas também deixavam vestígios e revelavam casos extraconjugais e traições de toda sorte.
Pois bem, morávamos próximo a um casal até então feliz, com filhos e muitos anos de matrimônio. Mas como a danada da mulher era a criatura mais curiosa do mundo, começou a escarafunchar as coisas mais pessoais de seu consorte e acabou descobrindo que, seu até então inocente e fiel esposo, estaria trocando correspondências amorosas, de gosto bem duvidoso, com uma bela e formosa dama, moradora da mesma região, porém algumas léguas ao norte, distrito com nome bem sugestivo para o caso, “PERDIÇÃO”- Iúna - ES.
Nossa protagonista, a esposa traída, nutrindo um sentimento de ódio visceral pela jovem do distrito de “PERDIÇÃO”; De alguma forma consegue algumas munições de garrucha calibre 22 e prepara sua vingança; Descobre o local onde a moça trabalhava e morava e por algumas semanas, estuda toda a rotina de seu alvo; Não poderiam ocorrer erros, tudo foi muito bem planejado, não haveria uma segunda oportunidade para a ação.
Colocando em prática seu plano de crime perfeito, nossa personagem conversa com seu “fiel” marido e inventa uma estória cobertura, para não gerar desconfiança e sai de casa. De bicicleta, segue em direção ao seu destino e ao encontro de sua adversária. Depois de mais de uma hora pedalando uma “monark monareta”, finalmente chega ao local preparado para o ataque; camuflando a bicicleta atrás de uma montanha de palha de café e escondendo-se de forma a não ser vista. Observando cada movimento que interrompesse aquele mórbido silêncio, nossa personagem espera pacientemente por seu alvo.
Desavisadamente, a “bela da tarde” como de costume, caminha pelo campo sozinha, feliz e contente, sem imaginar o que lhe esperava, lembrando Julie Andrews no filme “A noviça rebelde”... Então, é surpreendida por sua algoz com um grito de “PIRAAANHAA!!!” e um empurrão que a desequilibra e a lança ao chão batido do terreiro de secagem de café .
Então, em pé, tendo seu alvo caído ao chão e para consumar o hediondo crime, nossa protagonista enfia uma das mãos no bolso do vestido, apanha as duas munições de garrucha calibre 22 e diz: “agora você vai morrer, para aprender a não mexer com homem dos outros”! Mostra as munições para a vítima e as lança contra o corpo de seu alvo, como se fosse pequenas granadas de mão e de imediato, sai pedalando apressadamente sua monareta, fugindo sem olhar para trás, achando que havia assassinado sua adversária.
A tamanha simplicidade fez com que, até a vítima achasse que tinha morrido...
Porém apesar da intenção clara de matar, juridicamente, ocorreu o fenômeno da atipicidade, diante da falta de lesividade e consequente impossibilidade da arma produzir os efeitos desejados pela autora. No caso, poderíamos falar apenas em ameaça, lesão corporal caso tenha deixado vestígios, vias de fato e injúria. Finalizando a história, todos foram felizes para sempre.... e vida que segue.
Fabrício Lucindo Lima é delegado da Polícia Civil.
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