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Por que amamos encontrar monstros nos outros?

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Há um pensamento atribuído ao filósofo alemão Friedrich Nietzsche que diz o seguinte: “Aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não tornar-se também um monstro. Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você”. Essa passagem – assim, descontextualizada do restante da obra – me serve de alerta há alguns anos. Não recordo da primeira vez que a li, mas lembro da sensação de culpa que me sobreveio ao lê-la, como se fosse uma exortação divina. Costumo dizer que o filósofo ateu foi profeta ao escrever referido texto.

Ainda criança eu me comportava como uma defensora dos oprimidos, além de conciliadora dos conflituosos. À época isso não me restava claro. Só agora, ao fazer uma autoanálise, essa atitude me está posta de tal maneira. Parece que, durante a trajetória rumo à vida adulta, eu combati o que considerei opressor, me identificando com o oprimido, até o momento quando a frase de Nietzsche me deu um tapa na “cara”.

Deixei de ser a “salvadora”, a “sabe-tudo”... Passei a questionar minhas atitudes também, não só as dos outros. Procurei o “monstro” que poderia ter se desenvolvido em mim ou que estava só hibernando em uma moradia já familiar: o meu próprio ser. É pesado admitir erros e assumir responsabilidades; dificílimo enxergar-se (potencialmente) má como tantos outros.

Ao assistir um TedTalk sobre a origem do mal, a partir de um estudo realizado pelo professor Philip Zimbardo, minhas dúvidas se multiplicaram; o “homem mau” deixou de ter “cara” e endereço; soldados com boa reputação haviam se tornado horrendos torturadores dos prisioneiros de Abu Ghraib! Como e por quê? (Para quem se interessar, referido TedTalk pode ser encontrado no YouTube).

Há uma onda de pessoas “de bem” que decidiram linchar supostos criminosos Brasil a fora, como se lutassem em nome da justiça, quando, na real, me parece que estão se rebaixando ao nível antiético do transgressor, combatendo “monstros” só enxergados no outro, do lado de fora de si mesmos, mas tornando-se igualmente “monstros” ao praticarem a autotutela.

Sensatas e intrigantes críticas ao sistema de justiça criminal vigente também contribuíram para que eu mudasse de perspectiva a respeito dos “monstros”. Leituras pertinentes como de Bruno Amabile Bracco, João Marcos Buch e Ana Cláudia Pinho, por exemplo – todos acessíveis pelo Facebook, inclusive – subsidiaram (e ainda subsidiam) a construção de uma nova postura frente à “guerra ao mal” empreendida no Brasil. De qualquer modo, não escapei da “tendência” de estar ao lado dos oprimidos, combatendo opressores; agora, porém, de forma mais madura, atenta aos meus próprios males.

Já não confio mais na mídia como antigamente. Quando era adolescente, eu achava que os telejornais e as revistas diziam sempre a verdade. Todavia, muitas são as manifestações midiáticas com viés tendencioso. Afinal, quem não “puxa a sardinha” para o lado que defende? Defendemos, sempre, as nossas verdades, que não necessariamente são iguais às dos outros.

No entanto, a par de uma postura que beira ao ceticismo, eu ainda acredito que a História e a Filosofia, entre outros saberes, podem nos ensinar a discernir as ideias que nos são “vendidas”. Com isso em mente, ao ter contato com documentários como a “A casa dos mortos”, “Juízo”, “Making a

murderer”, “Amanda Knox” e “A 13ª Emenda”, por exemplo, passei a questionar também as políticas de persecução penal e a “fabricação” do inimigo.

A partir de então, tornou-se de meu interesse questionar os atos daqueles que, direta ou indiretamente, combatem os chamados “monstros” da sociedade. Assim, a imagem de “salvador” ou “bom moço” sempre atribuída a juízes, promotores, delegados e investigadores de polícia passou a ser desconstruída em mim.

Advogados e Defensores, outrossim, não escapam dos meus questionamentos, embora estejamos – eu também como advogada – do lado de cá, em regra, juntinho dos alegados “monstros” (Só para constar, estou eu aqui de novo, ao lado dos chamados “oprimidos pela violência estatal”).

Para mim, contudo, não se trata de empreender e sustentar uma guerra polarizada entre opressores e oprimidos dentro do sistema de justiça. No dizer do professor Leandro Karnal, “a polarização não favorece ninguém; a polarização [...] apenas mostra como me incomoda a divergência, evidencia a minha insegurança, não realiza o debate [...]”. Antes, portanto, trata-se de questionar tudo o que afeta a vida do outro, a começar pelas minhas próprias atitudes enquanto “profissional do Direito”.

Descobrir que não há uma só verdade, mas muitas, causa tremendo mal-estar. É como acidentalmente ficar cega e passar a tatear pela vida. Paradoxalmente, no entanto, encontrei liberdade na desconstrução de imagens e práticas que me foram impostas e encorajadas ao longo dos anos.

Supor que o “mocinho” e o “bandido” podem se confundir “dá um nó na cabeça”, como diz a mamãe. Igualmente, imaginar que podemos ser o “monstro” da vez em uma dada situação não me parece tão agradável, embora necessário.

Lembro-me de uma conversa que tive com uma amiga sobre o ato de julgar o próximo a partir de uma perspectiva cristã, quando travamos o seguinte diálogo, conforme a minha memória:

Eu: Não me sinto confortável com a ideia de julgar os outros. Não gosto disso! Fico incomoda quando vou à igreja e só ouço críticas contra aqueles que estão de fora, como se o outro sempre estivesse errado.

Amiga: Mas as Escrituras Sagradas dizem que devemos julgar segundo a reta justiça.

Eu: Verdade. Mas, reta justiça de acordo com quem?

Amiga: De acordo com os ensinamentos de Deus.

Eu: Tá, mas como vou saber se a minha visão de reta justiça é a mesma daquela de Deus? Ademais, quantas interpretações diferentes não temos acerca dos ensinamentos bíblicos?

Não me recordo de nenhuma resposta plausível que tenha me trazido paz. Além disso, não consigo conceber a ideia de ser mais especial do que o outro a ponto de conhecer a verdade absoluta e a revelação divina exclusivamente. Portanto, me parece factível que, se você encarar o abismo, ele lhe responderá com um outro olhar. E será perturbador... Talvez, libertador.

Géssica Belique é advogada, professora e pós-graduanda em Filosofia e Teoria do Direito pela PUC-MG.